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Limitações de conhecimento e equipamentos, supere estes bloqueios e destrave seu diagnóstico

Na matéria deste mês vamos apresentar alguns bloqueios que atrapalham muito os mecânicos no momento de realizar um diagnóstico de falhas, o que gera desperdício de tempo e insatisfação do cliente

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Por Laerte Rabelo


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Com o objetivo de mostrar tanto os prejuízos desses bloqueios como as vantagens de superá-los, iremos mostrar casos reais de diagnósticos realizados no dia a dia da oficina.

1. Principais bloqueios que impedem a realização de um bom diagnóstico

Após várias consultorias de diagnóstico automotivo para reparadores de norte a sul do país, constatei que dentre diversos motivos que dificultam e até impedem a identificação da causa da falha dos veículos, temos os principais apresentados na imagem. 

Nas próximas linhas vamos aprofundar cada uma dessas causas a fim de exibir suas principais características, bem como casos de estudo que exemplificam sua aplicação. 

1.1. Não consigo pensar como um estrategista

Esse é um dos principais motivos alegados pelos reparadores ao justificarem sua falta de sucesso ao realizarem um diagnóstico.

Mas, de fato, o que significa pensar como um estrategista?

De forma simples, para ser um estrategista, o reparador deve apresentar as seguintes características:

• Conhecer sobre o componente ou sistema que apresenta a falha;

• Planejar o passo a passo dos testes que irá realizar;

• Executar seu plano de ação criteriosamente.

De posse dessas competências, coloque-as em prática e identifique se o resultado foi que você: descobriu o defeito para trocar a peça e não trocou a peça para descobrir o defeito, se a resposta foi sim, é um forte indício que você está pensando como um estrategista e que está no caminho certo para atingir a maestria nessa habilidade.

O próximo passo é desenvolver progressivamente seu diagnóstico a tal ponto que você começa a criar estratégias que conseguem analisar vários componentes com um único teste, como a Estratégia BSM apresentada na edição de março de 2021, por exemplo.

Na imagem tem detalhes do resumo do pensamento estratégico aplicado ao diagnóstico. 

1.2 Não tenho informação técnica

De fato, não é novidade para ninguém que a falta de informação técnica reduz drasticamente a produtividade da oficina, sem falar no aumento do número de retornos de serviço por erro em algum procedimento ou falha no diagnóstico.

Por outro lado, se em sua oficina você tem acesso a uma fonte de informação confiável, de fácil acesso e com um formato que facilite sua leitura e interpretação, seu negócio terá os benefícios.

1.3 Não tenho ferramentas de diagnóstico

As ferramentas de diagnóstico são a interface ou ligação entre o reparador e o veículo.

Sem elas o técnico fica com sua capacidade de análise totalmente limitada.

Já com sua utilização o reparador transforma informação em conhecimento, ou em outras palavras, coloca a informação em prática. 

Veja as desvantagens da falta das ferramentas e os benefícios de tê-las em sua oficina.

1.4 Crenças limitantes

Há um bloqueio no processo de diagnóstico que passa praticamente despercebido pela maioria dos reparadores, é geralmente conhecido o nome de crenças limitantes, considero o pior dentre todos os citados anteriormente, pois mesmo que o técnico tenha desenvolvido o pensamento estratégico e disponha tanto de literatura técnica como de ferramentas de diagnóstico, ainda assim, em muitos casos não consegue realizar um diagnóstico de falhas assertivo.

Em resumo, as crenças limitantes são os principais responsáveis de nos impedir de atingirmos nossos objetivos, elas atuam como regras que nos impedem de conseguir o que é possível de forma rápida e simples. Elas são como terroristas internos que sabotam nossos melhores esforços. 

Em poucas palavras, são verdades aprendidas e não absolutas que o reparador aprendeu em algum momento de seu desenvolvimento profissional, mas que não é uma regra geral para todas as situações. 

No decorrer desta matéria vamos mostrar um caso real em que uma crença limitante atrapalhou o processo de diagnóstico de um reparador.

2. Estudo de casos

2.1. Pensando como um estrategista – Atenção aos detalhes

Esse caso foi cedido pelo reparador Francisco Itallo Silva de Lima da Cordeiro Via Sul, localizada na cidade de Fortaleza no estado do Ceará.

Sintoma: Proprietário de um VW Gol geração GVII 1.0 ano 2018 relata que após alguns minutos trafegando com o veículo, ele apresenta um corte em seu funcionamento e acende as luzes de injeção, airbag e ABS no painel bem como deixa de funcionar o ar-condicionado, velocímetro e tacômetro.

Diagnóstico: O reparador iniciou os testes utilizando o scanner a fim de verificar a presença de algum código de falhas que pudesse lhe auxiliar na identificação da causa da anomalia do veículo. 

Antes de dar prosseguimento no diagnóstico o reparador decidiu verificar o esquema elétrico do ar-condicionado do veículo que exibe detalhes do funcionamento desse sistema, já que o mesmo parava no momento da falha. 

Ao observar com atenção os esquemas elétricos, concluiu que o módulo de controle do ar-condicionado envia um sinal para o módulo de controle da carroceria, informando a solicitação de funcionamento do sistema, e que o módulo de carroceria envia essa informação para o módulo de controle do motor, via rede CAN, para que o mesmo acione o compressor do ar-condicionado.

Solução: Após realizar alguns testes na rede CAN com o multímetro e verificar alguma interferência no chicote do painel de instrumentos e constatar que estava tudo certo, o reparador decidiu acessar o esquema elétrico da rede CAN para ver alguns pontos vulneráveis do chicote. 

Ao ler novamente, atentou-se para o fato de o ar-condicionado parar de funcionar e a partir dessa informação decidiu fazer um teste com o veículo com o ar-condicionado desligado. Assim, para sua alegria, constatou que o veículo não apresentou mais o problema. Desta forma, partiu para identificação de algum ponto do chicote que poderia estar em contato com a tubulação do ar-condicionado.

Ao iniciar a verificação, constatou que os fios da rede CAN ligados ao módulo do ABS ficavam em contato com a tubulação de baixa pressão do ar-condicionado e que os mesmos estavam descascados, o que evidenciava um curto-circuito parcial nos fios da rede.

Para confirmar o diagnóstico, isolou os fios e confirmou que o veículo não apresentou mais a falha.

2.2 Informação técnica que faz a diferença

Esse caso foi cedido pelo reparador Fábio Ferreira de Oliveira da Alfa Fiat centro automotivo localizada na cidade Niquelândia estado de Goiás

Sintoma: O proprietário de uma Mitsubishi ASX 2.0, ano 2011, afirma que o veículo estava funcionando normalmente e que de repente apagou e não entrou mais em funcionamento.

Ao realizar a entrevista consultiva, Fabio foi informado que o mecânico que realizou o diagnóstico em um serviço anterior constatou que a causa era problema no módulo de injeção, o substituiu por um novo e o veículo entrou em funcionamento, entretanto, não acelerava.

Diagnóstico: Após ouvir atentamente o relato do proprietário, o reparador decidiu utilizar o scanner automotivo para verificar a presença de algum código de falhas na memória da central que poderia ajudá-lo no diagnóstico. Ao acessar o menu dos códigos de falhas, identificou o DTC P0657, referente a alimentação dos atuadores.

Como já haviam substituído o módulo do motor, o reparador decidiu testar o atuador do corpo de borboleta e confirmou que o mesmo apresentava resistência infinita. Imediatamente o técnico substituiu o atuador, porém não obteve sucesso, pois o veículo continuava sem acelerar.

Sem informações técnicas sobre o veículo como esquemas elétricos, posicionamento de fusíveis e relés, o reparador me pediu ajuda para resolver esse caso que já havia passado por três oficinas.

Assim, enviei para ele o esquema elétrico do atuador do corpo de aceleração bem como o posicionamento dos fusíveis e relés da caixa de distribuição de energia do vão do motor. 

Solução: Como esse veículo já havia passado por outras oficinas, algum reparador removeu o relé de alimentação do atuador da borboleta, ao identificar a ausência desse relé o técnico instalou um novo e problema foi solucionado.

2.3 Ferramentas de diagnóstico: Informação na prática

Esse caso foi cedido gentilmente pelo reparador Chris Hany de Sousa Mourão, da Auto Center Mourão, Guaraciaba do Norte-CE

Sintoma: O cliente chegou na oficina com seu veículo, um FIAT Palio 1.0 2007 Flex, afirmando que apresentava dificuldade para entrar em funcionamento.

Diagnóstico: O primeiro passo realizado pelo técnico automotivo foi medir a pressão da linha de combustível, que apresentou um valor dentro do especificado bem como uma boa estanqueidade. 

Como o reparador pratica o diagnóstico por imagem não se limitou à verificação da pressão e vazão de combustível. Assim partiu para a análise da corrente da bomba utilizando-se de um osciloscópio e um alicate amperímetro.

Solução: Ao visualizar o sinal capturado pelo osciloscópio, concluiu que havia problemas em relação ao contato das escovas da bomba de combustível que, como sabemos, é um motor elétrico, desta forma realizou a substituição por uma bomba nova e realizou uma nova captura, confirmando a eficácia do diagnóstico.

2.4 Consequências das crenças limitantes no diagnóstico

Sintoma: O veículo Ford Fiesta 2011 1.6 Zetec Rocan foi encaminhado à oficina pois não passava dos 4 mil rpm.

Diagnóstico: O reparador decidiu como primeiro teste a realização do diagnóstico com scanner a fim de verificar a presença de algum código de falhas que poderia ajudá-lo na identificação do componente ou sistema que estaria causando a anomalia.

Ao inserir a ferramenta de diagnóstico e acessar a memória de avarias da unidade de controle do motor, não havia nenhum código de falhas. Assim, decidiu verificar os parâmetros de funcionamento do motor através do monitor de leitura de dados.

Observando atentamente os valores exibidos pelo scanner dos diversos sensores do sistema de injeção, concluiu que a sonda lambda pré-catalisador apresentava valores fora dos padrões normais, entretanto, não acreditou que apenas essa falha poderia ter ocasionado esse comportamento irregular do veículo.

Solução: Seguindo a sequência presente em seu plano de ação, realizou verificações nos bicos injetores, velas, cabos e pressão da bomba, constatando que todos estes itens estavam em perfeito funcionamento.

Após gastar um bom tempo realizando esses testes, decidiu voltar ao item defeituoso, ou seja, a sonda lambda, e mesmo não acreditando que ela estaria causando a falha do veículo decidiu substituí-la.

Feito isso o veículo ficou com seu funcionamento perfeito.

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